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OS TIMES DE UM CLUBE

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Os Times de um Clube

Neste quaro artigo da série “Meu pedaço de várzea uma paixão” pretendo falar um pouco sobre as equipes de um time de várzea.
Continuo pensando sobre o que escrever a respeito deste tema rico e cheio de possibilidades, pois um clube de várzea normalmente mantém vários times, desde o Dente de Leite onde joga a garotada que está iniciando no futebol, passando pelo infantil, juvenil, esporte, extra, veterano e sucata, onde jogam aqueles com mais de 45 anos. No meu caso iniciei no Falcão do Morro no juvenil quando tinha 15 anos e hoje aos 56 anos ainda participo dos campeonatos de veteranos de Itaquera.
Independentemente da categoria, se juvenil ou veterano, acredito que importante será escrever sobre os primeiros e segundos quadros, ou seja, sobre o cascudão e o principal.
No time principal ou primeiro quadro como é chamado jogam os boleiros, já no cascudão jogam os cabeças de bagres ou eventualmente algum novato que está passando pelo segundo quadro a espera de conquistar uma posição no time principal.
Jogar no cascudão é uma paixão à parte e muitos jogadores, embora bons de bola, preferem ficar no cascudão e não serem promovidos ao primeiro quadro, pois o jogo do cascudo começa cedo aos domingos e dá para pegar o macarrão da mama ainda quentinho, já o jogo do primeiro quadro normalmente é no horário do almoço e seus jogadores nunca sentam à mesa aos domingos com a família. Dizem que as estatísticas provam que o segundo maior motivo de divórcio no país é jogar no primeiro quadro de um time de várzea.
O grande prazer dos jogadores do cascudão se dá quando o adversário não comparece, e neste caso normalmente o técnico bota para treinar o primeiro contra o segundo quadro. Confesso que não me recordo de um só desses treinos em que o time principal tenha ganhado, pois o pessoal do cascudo dá o sangue para não perder e ter motivo para gozar dos boleiros durante toda a semana.
Na várzea o técnico não possui posição de destaque, seu papel é escalar o time que só é modificado quando um jogador falta ou está machucado, distribui as camisas e fica na beira do campo gritando feito louco sem que ninguém lhe dê muita atenção, pois cada um joga como gosta e como sabe.
Normalmente o melhor fardamento é utilizado pelo primeiro quadro e isto é muito valorizado, sendo que os fardamentos mais surrados são repassados para o cascudo.
Fardamento novo só é comprado para estrear em campeonatos ou em festivais, e por falar em fardamento novo acabei de lembrar de um fato que ficou na história do Falcão, que foi o roubo de um fardamento.
Aquele fardamento tinha acabado de ser doado para o time por um candidato a vereador do bairro. Foi o mais belo fardamento que já tivemos, calção preto em cetim e camisas brancas com duas listras verticais em preto do lado direito e a cabeça da águia, símbolo do Falcão, no lado do coração.
Após ser utilizado na estréia no festival do Elite, como sempre o saco de roupa foi enviado para a casa da Dona Maria, mãe do Bororó, que era nossa lavadeira. Dona Maria cuidava com muito orgulho de nosso fardamento, pois, adorava o Falcão, principalmente porque seus quatro filhos jogavam no time. Lavava com sabão de coco e punha a roupa para quarar no gramado ao lado do campo, e depois de alvejadas e enxaguadas as peças eram colocadas no longo varal, em zig-zag, que ela tinha no seu quintal.
Pois bem, foi lá do varal da Dona Maria que o fardamento foi roubado, e lembro como se fosse hoje das lágrimas daquela senhora ao contar para o Zulú o ocorrido.
Passado algum tempo, num domingo a tarde no jogo dos Veteranos contra um time da Vila Jaú, ao entrar em campo o nosso primeiro quadro, fomos surpreendidos com o fardamento que garbosamente o adversário estava ostentando. Era o nosso fardamento roubado no varal da Dona Maria.
Corre corre para lá e para cá, muito bate boca, até que tudo foi explicado e ficou claro para nós que o Vila Jaú estava de boa fé, pois havia comprado o fardamento dum tal de Boca Rica que se dizia dono do material.
O Vila Jaú devolveu o nosso fardamento, e não o utilizou naquele jogo. Nós, agradecidos por recuperarmos aquela beleza, doamos um fardamento velho para o Vila poder jogar naquela tarde e ao final do jogo o demos a eles de forma definitiva.
Texto: Marcos Falcon - E-Mail: marcosfalcon@uol.com.br
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