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JOÃO TURCO - UM GRANDE SALTO

Prometi para a Fátima, mulher do João Turco, no velório dele, que escreveria este texto, pois havia cometido um pecado de até o momento não ter dedicado uma única linha de meus escritos àquele que, na realidade, fora o meu maior parceiro de aventuras da primeira infância e adolescência.

Talvez não tenha escrito por me sentir incapaz de expressar com o mérito devido quem fora o Cutruco, ou Cutrucão, ou simplesmente o João Turco, ou Turquinho Sem Bergonha, como era chamado por seu pai, o Sr. João Turco, mascate, o legítimo.

O velho mascate, Sr. João, desde que me lembro, andava com dificuldade, vítima de uma doença degenerativa. Carregava uma mala de couro bastante grande onde socava mercadorias de todos os tipos e saía a pé para vender aos trabalhadores das olarias na Terceira Divisão e Passagem Funda, lá para as bandas do Iguatemi, onde hoje passa a Jacu Pêssego, que dista algo em torno de quinze quilômetros de sua casa lá no Morro do Falcão.

Passava por vezes a semana toda visitando seus clientes e só retornava quando a mala estava vazia e o bolso cheio.

Durante a ausência do velho turco, o Joãozinho, peste juramentada de moleque, tinha a rua como seu quintal, e dela era o verdadeiro rei. O melhor na bolinha, no pião, nas pipas. Era ruim de bola e se destacava realmente nas brincadeiras de subir em árvores, saltar sobre obstáculos, sobre rios, caçar rã, passarinhos e até mesmo cobras.

Fomos criados juntos e mantínhamos um grande respeito e admiração um pelo outro, pois eu era seu único adversário à altura para competir em travessuras. Nas corridas e saltos nós empatávamos; por muito pouco, na subida em árvore ele era melhor que eu. Era melhor caçador de rã, mas não de passarinhos. Ganhava de mim na luta livre, mas perdia no boxe e ganhava em todos os jogos de rua.

Seu irmão mais velho, o Abdala, mais conhecido como Dalo, tinha um ferro velho e foi o primeiro a sofrer os problemas da doença de articulação, que a cada dia judiava mais e mais do velho Sr. João. Era o principal ajudante do velho, e para solucionar os problemas de locomoção, comprou um cavalo e uma charrete. O cavalo era uma piada, empacava mais que andava e só saía do local quando o freguês comprava algo.

Quando não deu certo o cavalo, o Dalo comprou um fusquinha que tem até hoje, e como bom mecânico de ferro velho adaptou o bólido à sua doença. Foi o primeiro fusca automático de embreagem a bengala e câmbio "Tipo Tronco". Somente o Dalo conseguia dirigir este carro, e até hoje, além dele, ninguém é capaz de tal feito. Se você não acredita, tá lá no Falcão do Morro, pode ir lá, fale que é meu amigo e o Dalo ficará orgulhoso em levar você para dar uma volta no próprio.

Bem! Vamos retornar ao centro do conto que é o Cutrucão. Poderia escrever uma centena de acontecimentos hilários sobre nossa jornada de procuradores de encrencas em Itaquera. Como aquele em que pegamos uma Jaracuçu do brejo à mão na espuma de uma rã. Ou mesmo aquele outro em que, para salvar o seu coleirinha (passarinho nativo papa capim) que estava sendo atacado na gaiola por um gato, dei uma paulada no gato, acertei a gaiola, e matei o coleirinha. Mas, por motivo que não sei qual, escolhi o caso do salto sobre o grande rio.

O Rio Verde nascia onde hoje fica a Cidade A. E. Carvalho, próxima de Artur Alvim, no subúrbio da zona leste, divisa com Itaquera. Passava por um bueiro por debaixo da linha do trem da Central do Brasil e entrava no Calipeiro formando o Areião, onde tinha somente cinco centímetros de água e uns dez metros de largura, local em que o pessoal retirava areia lavada de rio para construção.

Ao sair do Calipeiro, ele passava pela ponte da Vila João Valente e formava a Represa de Itaquera, ponto turístico com barcos, pedalinhos, trampolins, belas árvores com churrasqueiras à sombra, espaço de lazer e turismo, gerenciado pela Dona Cota, mãe do Deca, meu grande amigo.

Quando foi loteado, no local onde hoje é a A. E. Carvalho, toda terra da terraplanagem desceu pelo rio e assoreou a represa da Dona Cota. A represa desapareceu, o rio mudou o curso e passou a correr próximo ao barranco da Rua Tomazzo Ferrara, hoje Radial Leste, que contornava a represa, rua de terra batida e estreita. Onde era a represa ficou um lamaçal, surgiram as taboas que cobriram todo o local.

Um dia, o Gabi, moleque mais velho, dono da turma e protetor de todos, negão forte e valente, levou a garotada para ir nadar na Pontinha Preta, onde fica hoje o centro de treinamento do Corinthians. Nós menores somente íamos lá acompanhados pelos mais velhos, pois sempre encontrávamos a turma do Serrano da Cidade Líder, que punha a gente para correr.

Ao passarmos ao lado de onde um dia fora a represa, o Gabi, que adorava ver eu e o João competindo, logo lançou um desafio. “Quero ver quem é homem para saltar daqui de cima da rua, por sobre as árvores do barranco, passando por sobre o rio e cair lá do outro lado onde era a represa”. Traduzindo, seria um salto de um patamar de aproximadamente cinco metros acima do nível de aterrissagem e a uma distância diagonal de uns oito metros.

Fui até a beira do barranco e percebi que era possível, porém arriscado, e fiquei na minha. O João deu uma olhadela rápida e falou: "É manha, eu pulo". Para não ficar para trás, também aceitei o desafio, e no par ou ímpar decidimos quem seria o primeiro. Adivinhem, o João não perdia jogo nem mesmo quando o prêmio seria ruim para ele, e não deu outra: ganhou no par ou ímpar e o Gabi, então, definiu que ele seria o primeiro a saltar.

O João foi até a beira do barranco da casa da Dona Cota, do outro lado da rua, a uns quatro metros do ponto para o salto. Como sempre, tomou fôlego, fez o sinal da cruz e deu um pique. Levantou um lindo vôo sobre os arbustos do barranco, passou pelo rio, caiu verticalmente em pé no meio das taboas, e sumiu.

Esperamos alguns segundos para ver ele sair com a cara de campeão, com seus olhos azuis refletindo raios de felicidade, e nada. Foi quando escutamos um gemido sufocado de alguém pedindo socorro. Despencamos barranco abaixo, não me lembro nem mesmo como atravessei o rio, e fui o primeiro a chegar no ponto de aterrissagem.

Lá estava apenas a cabeça do Cutruco, pois o corpo estava literalmente enterrado no barro que mais parecia uma gigantesca barra de chocolate. Tentamos puxar o moleque pelos cabelos e percebemos que não daria certo, provavelmente arrancaríamos todos os fios de sua cabeça ou a própria, não sei o que faria mais falta para aquele desmiolado. Ao entrar no barro, criou-se uma espécie de pressão e não tinha como arrancá-lo de lá puxando. Neste momento, ele já reclamava de dores no peito pela pressão contra seu corpo.

O Gabi, então, nosso responsável de rua, correu até a casa da Dona Cota e pediu ajuda, e de lá vieram, prontamente, ela, o Seu Otávio, seu marido, e o Lilão, seu filho mais velho, e trouxeram com eles dois enxadões e uma pá.

Cavamos uma vala circularmente ao corpo do João e com as mãos fomos retirando o barro entre a vala e seu corpo. Com meio metro de profundidade e com os braços já soltos, conseguimos puxá-lo para fora. Ele era o próprio moleque de chocolate, e olhando para mim desafiou:
“Marcola, pular você também pode até conseguir, o que vale agora é quem vai enterrar mais fundo”.

A competição terminou ali, e até hoje não sei se teria a coragem de executar aquele salto.

Este era o João, grande amigo, grande negociante, para quem vendi por uma bagatela a chácara de meu pai em Itaquera. Ele morreu jovem para esta vida, vitima de uma doença sem cura.

Não tive coragem de vê-lo em fase terminal, pois a imagem que quero guardar deste meu amigo é do João Forte Valentão, bão de briga, coração grande, respeitado pelos bandidos do pedaço e por todas as famílias da comunidade.

E pensar que um dia eu tentei levá-lo para a TFP.

Turcão, vai montando os obstáculos por aí e treinando muito, que quando eu chegar vamos tirar as dúvidas de quem é o mais moleque.

Texto: Marcos Falcon - E-Mail: marcosfalcon@uol.com.br
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